quinta-feira, 26 de abril de 2012

Despedida

Uma lágrima pra cada dedo desentrelaçado.
Um sonho acabado a cada adeus falado.
A dor a cada ângulo que nosso corpo vira.
O desespero a cada centímetro que afastam nossas costas.

Foi assim, segundo a segundo, que nos perdemos para tentar seguir nossos caminhos sozinhos.
Sem promessas de reencontros ou de esbarrões.
Com juras de nunca mais nos vermos
E certezas que no fim doeu pra caramba.

Por isso, rosa, guarda seus espinhos
Já machucaram demais seu nego
Que hoje volta a procurar a alegria
Em lugar algum.

Por isso, rosa, encolhe suas pétalas
Que cariciaram tanto esse nego
Que ele não sabe mais se a felicidade
Consegue ser mais suave.


Quinta, 26 de abril de 2012 às 17:39

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Obituário

Deu no jornal:
Faleceu nesta cidade, o ilustríssimo João Ninguém. Ninguém deixa os filhos Maria, Antônio e José. Todos que conheciam Ninguém deixam suas condolências e pesares.
O corpo de Ninguém está sendo velado na capela de Lugar Algum e será enterrado em Qualquer Lugar.


Segunda, 9 de abril de 2012 às 21:10

Lápide

Nela se lia:
Aqui descansa meu corpo
Nascido na quarta-feira de cinzas de 1966
E repousou no Corpus-Christi de 203?
Morreu por precisão.
Morreu porque o corpo finda.
Morreu porque a alma tinha hora marcada com o infinito.

Segunda, 9 de abril de 2012 às 21:04

quinta-feira, 29 de março de 2012

Pedra

Não fora apedrejado até a morte como seus irmãos, irmãs e outros parentes. Mas constantemente ao andar pela medina alguém lhe jogava pedras. Algumas acertava-lhe a cabeça e machucava de sair sangue. Outras acertavam-lhe o peito, a barriga e o baixo ventre. Apesar disso se acostumara a guardá-las. Chegava em casa e as colocava num cesto ao lado da cama de palha no chão do quarto.

Naquele dia, cansado dessa rotina deixou as 5 maiores pedras sobre a mesa da sala, escreveu uma carta e a deixou sob as pedras. As lágrimas borraram os traços sobre o papel.

O que estava escrito nunca se soube, nem tampouco o motivou a fazer o que fez a seguir.

O que se encontrou além da carta sobre a mesa foi um banco caído, um lençol amarrado no mastro principal do telhado e preso no seu pescoço. Encontraram uma foto da esposa caída no chão com os vidros quebrados e uma pedra grande ao lado.

Talvez tenha morrido sonhando que ser apedrejado até a morte lhe dava mais honra que estar casado com quem o odiava tanto.

29 de março de 2012 às 23:18

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ontem recebi uma visita tua,

Ontem recebi uma visita tua,

Vinhas na forma do meu pai. Mas podre e deteriorado. Tuas mãos como raízes entraram nos meus braços, paralisando-os. A dor, pra quem como eu que conheceu várias definições delas, era indescritível.Gelavas minhas veias e o meu coração Enquanto sussurravas que algo grave iria me acontecer. Não sei se era terror ou a sugestão dele,Não despertava do pesadelo horrível,Enquanto a carne podre do meu pai se misturava a minha. A morte estava lá,

Não como sempre esteve, Dessa vez não tinha vindo mostrar-se e levar algo querido.

Ela, acompanhada do seu marido destino, sempre me mostrou horrores,

Que via mesmo não querendo enxergar.Os sons, os cheiros, os gritos. Mas nunca eram meus. Desta vez veio sozinha,E veio para mim,Na forma do cadáver do homem que mais amei. Não sei o que quer. Mas sei que vai voltar. Tenho medo do dia que a carne de um Otavio seja a mesma de outro. E que ela não volte mais.

Quarta, 21 de março de 2012 às 11:56

terça-feira, 13 de março de 2012

Pra quê?

Falta de consideração. Individualismo e desinteresse.
Pra quê?
Se ao dar o meu coração
Abri mão disso tudo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ofertório

Marialva pensava que se casasse com Josinaldo todos aqueles problemas passariam.
Era tudo uma questão de ajuste. Josinaldo acalmaria no trabalho e no boteco e o ciúmes que a consumia partiria.
Na noite da boda, Marialva pura e branca deitou-se na cama de vestido e esperou que Josinaldo chegasse e o arrancasse. Mas o tempo passava e Josinaldo nada que chegava.
Uma hora, duas horas. E nada.
Resolveu voltar pra festa que ainda rolava alto do lado da Igreja.
Assuntou por Josinaldo e nada.
Foi então à sacristia e ninguém estava por lá.
No entanto, do quarto do padre ouvia altos gemidos. Estranhou mas sabia que seu primo, padre Tonho, de santo não tinha nada, mas pra ela aquilo era abuso.
Deu meia volta e resolveu não bolir com o que não era da sua conta. Não é então que ela escuta a voz de Josinaldo gritando de dentro do quarto. E bastante animado.
Marialva que era mulher de paciência grande, mas de pavio curto abriu a porta de porrada e quase morreu do coração.
Na cama Josinaldo de quatro com seu primo Tonho de cachorrinho engatado.
Atordoada e de sangue nas orelhas, fula como só uma mulher traída por dois homens de uma vez só podia estar procurou o que podia pra dar de coça nos dois.
E eis um ofertório de metal maciço aparecia abandonado em cima da penteadeira.
Não pensou duas vezes, ou melhor, foram duas, uma na cabeça de cada cabra engatado.
Morreram na hora, de sanque pra todo lado.Se alguém visse Marialva naqueles tempos jamais imaginaria que aquele toco de mulher pudesse matar dois homenzarrão de uma vez com uma peça tão pesada.

Hoje ninguém explica direito aquilo. Acharam os dois mortos ainda engatados e o ofertório caído sujo de sangue no chão. Um dizem que foi ladrão. Outros dizem que foi um noviço que teria participado da orgia, mas ninguém conseguiu provar nada pois naquela hora o noviço tava jogando pescaria na barraca no meio da festa. Outros dizem que foi justiça de Deus. Mas ninguém sabe que Marialva guarda em casa o vestido branco sujo de sangue até hoje num baú no pé da cama.

Uma coisa ela tava certa, o casamento acalmou ela e Josinaldo.


Segunda, 6 de fevereiro de 2012 às 22:25

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Amor engaiolado

Foram 6 meses de entendimentos e desentendimentos.
Quando o menino percebeu que era louco pela menina fez de tudo. Virou anjo. Virou sabiá. Se engaiolou. Desaprendeu a voar sozinho. Até comer era difícil.
A menina retribuía com uma atenção que ele nunca tinha tido. Uma presença quase constante. Uma dedicação sem igual.
Certo que queria o menino só pra si e cobria a gaiola com um pano de seda rosa e branco quase toda noite.
Ela queria ver o menino cantar mas ao mesmo tempo queria que fosse só pra ela e não pro mundo.
O menino era doente e foi ficando cada vez mais doente.
E a doença parecia confundir a cabeça da menina.
Eles brigavam enquanto amavam.
Ela o queria forte e brilhante e só dela.
Ele estava ficando fraco e cinza e de mais ninguém.
Até que numa noite a gaiola quebrou e quem fugiu foi ela. E ele, o menino, ficou lá sem saber por que e sentindo toda a culpa do mundo.
Só sabia que a amava mais que tudo, que estava doente, cansado e que reagira mais uma vez às atiçadas da menina.
O amor do menino está lá na gaiola no meio dos aros sangrando e vai morrer.

Mas ele vai estar lá por muito tempo.



Sexta, 3 de fevereiro de 2012 às 08:03

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Belo Rapaz

Veja ilustre passageiro/
Que belo tipo lindo e faceiro/
Tens ao seu lado./
Quase morreu, pobre coitado/
Salvou-lhe Rhum Creosotado."

Quem vê aquele belo moço
Não pensa nada além do que passa na superfície.
Quem vê naquele belo moço viço e força,
Não espera nada além de otimismo e alegria.

Não vêem os que vêem a forma externa,
Que o vicejar desaparece a cada centímetro da pele.
E que no fundo, no fundo
Há algo além da imaginação hamletiniana
Há algo a agradar os Augustos anjos da vida.
Há algo alvarento de tão azedo que está.
Há muito de Alvarento nos campos debaixo da pele.

Quero meu Rhum Creosotado!

Sábado, 17 de dezembro de 2011 às 11:51

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Dois pesos e duas medidas

Seu B vale sempre mais que meu A.
Seu Ω vale mais que meu A.
Dois pesos,
Duas medidas.

Seu g vale mais que meu Kg.
Seu pence vale mais que minha £ibra.
Dois pesos,
Duas medidas.

Sua hipótese vale mais que minha tese.
Sua inferência vale mais que meu paradigma.
Dois pesos,
Duas medidas.

Seu 1 vale mais que meu 2.
Sua interpretação vale mais que a minha verdade.
Dois pesos,
Duas medidas.

Tudo isso vale por que meu amor, esse sim, deve valer mais que o seu.
Meu peso,
Minha medida.

Quinta, 17 de novembro de 2011 às 07:42