terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ateísmo

Quando o médico lhe disser:
"Mesmo com medicamentos, você só tem uma sobrevida estimada de 6 meses."
Agradeça a seu deus. 

Quando seu chefe lhe dá férias, mesmo você sendo freelancer e garante seu emprego na volta.
Agradeça a seu deus. 

Quando você volta de férias e aquele mesmo chefe que lhe garantiu o trabalho lhe dispensa. 
Agradeça a seu deus. 

Quando você estiver na sua quarta série de quimioterapia tendo sobrevivido em quatro ano àqueles seis meses que o médico havia previsto. 
Agradeça a seu deus. 

Quando acabar esse tratamento e descobrir que virará uma cobaia humana, terá que fazer outro com medicamentos que podem fazer-lhe mais mau que bem sem perspectivas de cura. 
Agradeça a seu deus. 

Quando você descobrir que uma caixa do remédio que tomará custa o equivalente a três meses do seu  trabalho e dura uma semana. 
Agradeça a seu deus. 

Quando souber que para importar esse remédio terá que pedir mil permissões e autorizações nos órgãos competentes e que pode durar meses. 
Agradeça a seu deus. 

E quando você se tocar que está perdendo parte do prazer de viver por conta dessas coisas. 
Agradeça a seu deus. 

Sempre agradeça a seu deus. Sempre. 
Por que para o resto da humanidade reserve seu amor, dor, tristeza, carência. 

Big Bang Theory

E numa explosão de paixão
Explodiu o nada,
De repente, tornou-se tudo.
Até se tornar as estrelas e as constelações.

O Universo se esfria enquanto se expande,
Menos as estrelas que colocou no meu coração.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Interminável

Tic toc 
Um dia se passou desde ontem
Tic toc 
E ainda ouço intermitente
Tic toc 
O relógio do coração quebrado. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

21 anos

Passaram-se 21 anos que ele dormiu para não acordar mais. 

Talvez algumas pessoas não saibam como é olhar-se no espelho e ver a imagem de alguém que você tanto amou refletida. O nariz torto, orelhas de abano, um sorriso meio tímido, sobrancelhas grossas, fios ruivos na barba. 

Em um domingo desses, ele deu o primeiro passo para descansar. Aos que ficaram não é permitido descansar sua memória. 

Ele deixou marcas na cidade, eu sempre digo. Mas essas poderão deixar de existir um dia. As que carrego no rosto, as que a genética me deu. Essas vão demorar e a cada manhã que passará hei de encontrá-lo refletido no espelho. 

Beijos, pai. Saudades. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

275 anos

Da primeira vez, logo que ao mundo vim.
Mal (havia) acabado de nascer. 
Ao meu lado, nem anjo ou querubim
Nem mesmo um demônio ousou crescer. 

Na segunda, me encontrei na selva escura
Onde começava a via da minha vida. 
Esta se achou no ardor perdida
E se queimou de dor ardida.

Na terceira,
O que foi perdido
E o que foi achado
Me des()encontrou traído
Pelo amor travado.

Na quarta,
para(noias me assolaram.
com grossos coturnos 46 de bico largo
Mas foi pouco e não me massacraram.

Quantas vezes mais virão
Não me cabe saber. 
(de virada ou de viés)
Só resta a certeza que sempre vou sobreviver.

Se isso é bom ou ruim
Não sei lhes dizer
E se soubesse 
Nada contava. 

Trabalhância

Um dia me gritaram
Que dez não faz um ofício.
Quase mandei fazer o zero
Com o orifício.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Liberdade

Saboreou o oyako donburi tal qual um condenado saboreava seu último prato antes da execução. 
Afogou-se em piedade dentro do chauan de missoshiro, enquanto lia a ir)realidade do mundo em um gibi do Grant Morrison. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sapiência

Eu posso não saber de tudo,
Mas definitivamente vocês não sabem de nada. 

Um café, pela manhã

Amanhece no Bixiga. 
Um rapaz, de terno e gravata, esconde-se nas escadarias pra fumar um baseado. 
Minha presença o assusta. 
Mas ao senti-la segura,
Segura o cigarro e o acende. 
Traga. Traz. 
Devorando-o com o mesmo prazer
Que bebo meu primeiro café pela manhã.