terça-feira, 31 de março de 2015

Serviçal

"O senhor está pronto para ouvir a palavra do Senhor."

Estranhou a interpelação e a interpolação. E por um segundo cogitou responder, mas seguiu em frente esbarrando no senhor que o abordara.

Mais que agressivamente o senhor com a Bíblia na mão agarrou seu braço e com voz de trovão disse incisivamente:

"O Senhor tem algo a dizer para o senhor."

Sentindo-se agredido e incomodado por tantos senhores, revidou:

"Desculpe-me, mas não sou escravo para ter um senhor. E o senhor, faça o favor de soltar-me o braço."

Talvez assustado com a reação ou incomodado com ela, soltou o braço. Foi então que reparou que os olhos daquele senhor ferviam em raiva. O senhor do Senhor gritou que o Senhor a quem ele servia não era desses senhores de escravos.

Olhou para o senhor com fé, com pena, ao perceber que o Senhor da fé o havia agrilhoado a um livro e jogado em uma prisão de inúmeros dogmas.

Mas a cara de pena só suscitou mais raiva naquele senhor que disse:

"O desdém do senhor, ainda vai levar o senhor pro inferno!!!"

Foi então que de pronto o homem que queria se ver livre de senhores perguntou:

"De qual senhor está falando que vai pro inferno?
"O Senhor?" - apontou para o céu -"O senhor?" - apontou para si próprio - "Ou o senhor?" e apontou para o religioso.

Depois de todos os impropérios que ouviu, o senhor transeunte teve certeza qual dos três senhores iria para companhia do adversário.

sábado, 28 de março de 2015

Notre Dame des Piétons

Eis que ele apertou o botão do semáforo de pedestres e o sinal abriu para ele. 
Daquele dia em diante sua vida se transformou e passou acreditar em milagres. 

Se você passar no cruzamento da brigadeiro com a alameda santos pode ser que o veja em seu ritual diário de acender velas para Nossa Senhora dos Pedestres.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Dissimulacros

Não crie o produto,
Crie a necessidade do produto.
Não crie o risco,
Crie o medo dele.
Não crie o medo,
Crie a necessidade de se proteger.
Não crie a doença,
Crie os sintomas.
Não crie os sintomas,
Crie a necessidade de cura.
Não crie o Estado,
Crie a ideia de um.
Não crie a felicidade,
Crie a obrigatoriedade de ser feliz.

Depois de criado os simulacros
Não se preocupe com a realidade,
Pois ela já não mais terá a possibilidade de existir.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Paca Tatu...

Tomo café pensando na rapidez com que bebo o líquido preto escaldante e não queimo a boca. Daí me recordo que sempre me espantava que meu pai fazia o mesmo. E eu sempre me perguntava como fazia, enquanto ele trocava o meu café com leite de copos buscando esfriar. 

Como uma coisa leva a outra, passa a bela (pero no mucho) moça na frente do boteco e todos os pescoços quebram por causa dela. 

Penso no meu pai novamente me ensinando daonde vinha a palavra paquerar. Que paquerar é o ato de caçar pacas. Sim o roedor. (Nota: esse verbo só existe em luso-tupi). 

O paqueiro (ou paquerador) buscava durante o dia a trilha que o animal deixava quando desentocava. Caçá-lo consistia em ficar parado com um saco na trilha enquanto outros saiam pelo mato espantando o bicho. Dizia meu pai que a paca sempre voltava pelo mesmo caminho e que era só esperar que ela entrava no saco desapercebido. Num entardecer dava pra pegar umas quatro se Curupira não atrapalhasse. Era a hora do retorno pra toca. Digo entardecer, pois as onças saem para "paquerar" durante a noite. E não é uma boa para uma paca dar bobeira por aí de noite. 

Acabo de mastigar meu pão de goma que de queijo não tinha nada, jogo o pedaço final no lixo. Acabo com o segundo copo de café pelando e parto para a faixa de insegurança na frente do meu prédio. Na cabeça, além da saudade do meu velho, uma frase chiclete insiste em repetir: paca, tatu, cotia, não. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Missing people

Hoje senti saudades
Daqueles que partiram
Pra nunca mais voltar. 

Pai, avó, amigos, 
Primos e professores. 

Hoje sinto saudades 
Do abraço de nunca mais 
Do beijo de jeito nenhum
Da mão que inexiste. 

Homens, mulheres,
Lésbicas ou gays.
Ruivos, negros ou índios.

Saudades deles todos. 
Que transformaram minha vida 
E não estão aqui pra destransforma-la.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Devaneios humanísticos (ou Donne pessimista da Moóca)

Persigo com todas as forças o homem renascentista em mim. 
O humanista, o amante da humanidade. O sobre-desumano. 
Não um Leonardo
Nunca Michelângelo
Sempre um Rabelais gigante e torto
Pantagruélico para não fugir do lugar comum. 
Um delirante Cervantes. 
Uma alma que vá de Erasmo a Maquiavel, permeando um Bacon e nunca resvalando num Montaigne. 

Mas pateticamente constato que sou um brasileiro barroco-macunaímico. 
Uma triste figura dos tempos atuais que suga as informações e jamais vai além de moinhos de vento. 

***

E ainda que certo de que todas as políticas e lideranças passarão. 
Que ideologias, religiões, times de futebol morrerão. 
Que os jovens idealistas sempre se tornarão velhos arrivistas. 
Que sonhos de salvação viram delírios messiânicos. 
Que no final o interesse de poucos sempre prevalecerá aos da maioria. 

Permaneço humanista por acreditar no ser humano que se enriquece com a sabedoria de um qualquer e se empobrece com a morte de qualquer um.

Mas uma coisa é fato, todas espécies morrerão. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Urban body

"You may say I'm a dreamer"
But I'm just an street photographer
And a bar philosopher. 

My thoughts isn't a place 
It's in everywhere. 
My feelings occupy more space
Than an universe. 

So my thoughts is the street 
And my feelings is the bar. 
'Cause its are in the same city,
My urban body. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Wild(e) Ghost

Calor
Fraquejo
Caio

E o sangue, tal qual nódoa cantervilliana, insiste em não se apagar. 



Excesso (ou morte prematura por cozimento precoce)

Modorra de boca 
Mildragões escoceses
Venti-la-ador 
           quixotescamente 
Briga
Luta perdida. 

Corpomeu semi
10falecido 
10salinizado 
10idratado
Treme. 

Tento 
       Soro
      iSotônico
Nadadiantando

Bus(c/p)orpoforça
Levantalimentar
10m(edo)aio
10arranjos
10espero

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Tumores

Da primeira vez, logo que ao mundo vim.
Mal (havia) acabado de nascer. 

Ao meu lado, nem anjo ou querubim
Nem mesmo um demônio ousou crescer. 

Na segunda, me encontrei na selva escura
Onde começava a via da minha vida. 
Esta se achou no ardor perdida
E se queimou de dor ardida.

Na terceira,
O que foi perdido
E o que foi achado
Me des()encontrou traído
Pelo amor travado.

Na quarta,
para(noias me assolaram
com grossos coturnos 46 de bico largo
Mas foi pouco e não me massacraram.

Quantas vezes mais virão
Não me cabe saber.
(de virada ou de viés)
Só resta a certeza que sempre vou sobreviver.
Se isso é bom ou ruim
Não sei lhes dizer
E se soubesse 
Nada contava.