quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Você está bem?

Não. Não estou nada bem. 

Sabe, ainda tenho vida dentro de mim, mas também uma doença que me destrói e tenho medo. 

Isso não é estar bem. 
Isso é estar vivendo. 
Até onde poder chegar. 
Para poder partir.

Não queria ter mais noção de tempo, para não saber o muito do tudo que estou perdendo. 
Não nos deram a opção de saber quando vamos morrer. Mas sabemos que iremos. 

A maior crueldade da vida é essa. Receber desejos, sonhos, vontades, amores e esperança, para saber que vão se perder. 
E esse é também seu maior presente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Seja

Jorge Drexler em uma estrofe da música Sea diz (e me perdoem a tradução tosca):

"O que tiver que ser, que seja 
E o que não, por algo será
Não creio na eternidade das brigas 
Nem nas receitas da felicidade."

Chama-me sempre a atenção os dois últimos versos. 

De fato, não creio na eternidade das brigas, mas o que for, que seja. 

Mas as receitas de felicidades, essas não existem e não é só por uma questão de crença. E é o que tem que ser. 

Felicidade é um estado momentâneo de gozo pela satisfação alcançada e esse orgasmo não é obtido por fórmulas mágicas propostas por religiosos (castradores por definição), filósofos (castrados por essência) e psicólogos (eunucos castradores por profissão). 

Só os poetas, por serem densos e profundos, sabem o que é felicidade, pois a eles é permitido chegar no mais escuro da tristeza onde um pequeno facho de alegria acaba por constituir toda a felicidade do mundo, naquele instante. 

Por isso desconfio e tenho medo da patologia psicológica daqueles que buscam a felicidade e suas receitas a qualquer custo ou ao custo de qualquer ilusão. Essas pessoas levam promessas que nunca poderão cumprir e nelas envolvem as pessoas que sabem que a felicidade é transitória e efêmera e que se apaga ou escurece ao primeiro obstáculo que se impõe na sua frente, mas ainda assim sonham com ela, os poetas, sejam quem forem. 

"Y el que quiera creer que crea
Y el que no, su razón tendrá
Yo suelto mi canción en la ventolera
Y que la escuche quien la quiera escuchar

Ya esta en el aire girando mi moneda
Y que sea lo que
Sea"

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Décimo primeiro

"Tomai as leis de Moisés e adicioneis mais esta:

Não usarás a palavra Amor em vão. Pois o Amor é o sentimento mais sublime que o Pai nos deu e seu maior presente."

Evangelho de Mateus, Cap 5, vers. 49 e 50. Apócrifo.

sábado, 15 de agosto de 2015

Fractura

Ele gostava de curvas,
Ela das linhas retas.
Ele biólogo,
Ela artista.
Ele orgânico,
Ela concreta.

E entre paralelas se encontraram em um momento do caos

Em um ponto quebrado de uma fractal multifacetada.

Vá pentear macacos!!!

Se você confunde elogio com galanteio, voce não vale nem um dos dois.
Se você confunde atenção com assédio, você é muito pretencioso.
Se você confunde favor com obrigação.
Vá pentear macacos!!!

domingo, 9 de agosto de 2015

Não sentido familiar pelo WhatsApp

"Vou chegar mais cedo no metrô."

"Se eu pegar o metrô certo eu estarei lá em 30 min. Quase pego o metrô errado. Pode?"

"Pode. Eu deixo."

":-)"

"Estou dando uma geralzinha no carro. Abastecer calibrar, água e talvez até ducha."

"Eu já tomei água e ducha.
Obrigado.
Preciso é me abastecer. Não tomei café. Hehehe"

"Tá faltando calibrar e abastecer. 
:-P"

"Descalibrado sou. Tem jeito não."

"Somos 2.
Fomos 5. 
Agora somos mais d 7 bilhões"

"Seremos sempre 8."

"9's fora nada."

"Quem dera eu fosse um peixe..."

"Para borbulhar..."

"Tomei luftal."

"E eu enfezada...."

Dia do pai

A noite não queria que eu dormisse, só consegui pegar no sono eram quase três horas da manhã. Não sem antes de colocar o despertador para às nove horas para ver se conseguia dormir um pouco mais. 

De repente acordo, o telefone tocando às 7 e pouco, apreensivo, assustado, mas era uma querida amiga, sabendo-me madrugador como ela, ligando para me desejar feliz dias dos pais. Falo com a língua enrolada que estava dormindo, ela se desculpa e pede para eu voltar para os braços de Morfeu.

Uma vez acordado raramente volto a dormir e é nessas horas que o caldeirão do diabo chamado mente humana funciona a mil. Penso de como havia me desligado completamente da data. Penso de como é uma data estúpida que comparada comercialmente com os dias das mães é nada. Penso, penso, penso e começo a chorar. Afinal por mais idiota que seja a data nada tinha a celebrar, afinal os motivos para tal festa estavam inalcançáveis: o pai por conta do destino e a filha pela distância.

Daí, como homem não chora, engulo as lágrimas e penso que mais estúpido que a data, era eu chorar por ela. Não pela comercialidade dela, mas pelo fato de que não haver motivo para tristeza. 

Tive um pai que no contabilidade geral do nosso pouco tempo juntos, foi uma das melhores pessoas do mundo. De quem herdei pêlos ruivos no corpo e generosidade , senso de justiça, curiosidade e criatividade em tamanho família. Um pai de quem me orgulho e muito. 

Da filha, o que falar dela? Que ela é meu raio de Sol? Que é ela com seu carinho e existência justifica a minha existência como pai? Que ela com a sua pré-adolescência já coloca o pai de orelha em pé? Que com seu gosto pela música e dança sempre fez sonhar me um pai de uma estrela? Que ela me faz ter orgulho e vaidade pela beleza e inteligência que possui?

Bom, conclui que, no final das contas, não era um mal dia. Sorri. Agradeci mentalmente a amiga que me despertou e acordei de vez. 

Obrigado, senhor Otavio Luiz Venturoli, meu pai. 
Obrigado, Clara Sanson, minha filha. 
Por existirem e darem um motivo para comemorar esta data. 

Amo muito vocês.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bondade

Ser bom na vida é sobretudo facilitar a vida das pessoas, independente de quem seja, amigo ou inimigo.
Os amigos para que cresçam e os inimigos para que partam.

Sejamos os abridores de caminhos dos outros, que talvez assim nossos caminhos se abram.

sábado, 1 de agosto de 2015

Setenta e nove

Falta-me menos de um ano para meio século. A ti faltaria um ano para os oitenta. Não sei quais palavras lhe diria. Nem sei se ainda conversaríamos, pois somos muito parecidos. Eu hoje, você ontem. E que as parecenças mais afastam que atraem, dizem por aí.

Não sei se poderia imaginar um diálogo com você, mas por aqui, na escrita, podemos tudo.

"Oi, filhão!"
"Oi, paizão. O que conta? Tem conseguido descansar?"
"É, estão sendo bom comigo! Mas sinto falta de vocês."
"Nós nunca te esquecemos. Como poderia ser se até seus netos são parecidos com você?"
"Tenho visto. O Thiago tá enorme. E o Rafa parece muito a mãe deles. 
E a Tata? Ela me parece muito cansada. Fale pra ela que mandei descansar, se não volto pra puxar o pé dela."
"Hahaha, você sempre ameaçou fazer isso. Nunca fez. Por mais que a gente esperasse."
"É que pras bandas de cá não tem disso. É tudo história pra assustar crianças."
"Ou deixar adultos esperançosos..."
"E a Nanda? Pelo que sempre vejo, aquela pequena não para."
"Poxa, todos nós herdamos pelo menos alguma coisa de você."
"Realmente, suas orelhas e nariz são iguaizinhos aos meus"
Torço o nariz e lhe dou um soco no ombro. 
"É bom saber que você não perdeu o humor, pai. Tem aprontado muito por lá? Já pôs curto circuito em tudo por lá?"
"De vez em quando roubo as chaves de Pedro e escondo. Ele fica louco. Mas sempre acha.
E você, filho? Sempre me preocupei com você. Achei maravilhoso quando entrou pra trabalhar com livros. Era de fato o seu mundo. Mas a vida não tem sido boa para você, não é?!?"
"Um probleminha aqui, outro acolá, mas nada para se preocupar."
"Olha, sempre tive dificuldade de conversar com você abertamente, mas não menospreze a minha inteligência. Eu observo. Eu sei."
"Deixa isso pra lá, você nunca me disse também que seria fácil, embora tenha tentado muito me poupar."
"Mas filhão, você tem que se olhar mais, cuidar mais de você. Não deixe que te atinjam como me atingiram. Afinal você tem que cuidar daquela menina linda que você me deu como neta. Como ela tá linda!!! É, filho, sinto lhe informar, mas você se fudeu. Vai dar trabalho."
"Já dá, mesmo estando longe. Ela iria adorar você. E você iria precisar de mais energia do que teve com a gente. Sabe, pai, ela é feliz. Da maneira dela, mas muito feliz e alegre."
"Eu sei, eu vejo. Ela é uma luz, e junto com os ruivos, tem o poder de tirar essa dor de dentro de vocês."
Sorrio por entre as lágrimas. 
"Bom, tenho que voltar. Estão me chamando e eu tenho um compromisso."
"Mas não vai perguntar da mamãe? Não que saber dela?"
"O que você acha que é esse compromisso? Tenho que me preparar, estar perfumado e elegante pra quando aquela morena chegar. Dela sei mais que você."
Então me aperta os ombros com suas mãos gigantescas e diz olhando nos meus olhos:
"Otavio, se permita ser feliz. Você não teve culpa de nada e está há muito tempo tentando se redimir. Fale isso pras suas irmãs também. Estou bem."
E me beijou como só um pai sabe beijar um filho. 
"Te amo, pai."
"Eu também, filhote. Até!"